quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Drowning Dreams

Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
— depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar.

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre dos meus dedos
colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...

Cecília Meireles, in 'Viagem'

domingo, 14 de novembro de 2010

Amor, Pois que É Palavra Essencial

Amor — pois que é palavra essencial
comece esta canção e toda a envolva.
Amor guie o meu verso, e enquanto o guia,
reúna alma e desejo, membro de vulva.

Quem ousará dizer que ele é só alma?
Quem não sente no corpo a alma expandir-se
até desabrochar em puro grito
de orgasmo, num instante de infinito?

O corpo noutro corpo entrelaçado,
fundido, dissolvido, volta à origem
dos seres, que Platão viu completados:
é um, perfeito em dois; são dois em um.

Integração na cama ou já no cosmo?
Onde termina o quarto e chega aos astros?
Que força em nossos flancos nos transporta
a essa extrema região, etérea, eterna?

Ao delicioso toque do clitóris,
já tudo se transforma, num relâmpago.
Em pequenino ponto desse corpo,
a fonte, o fogo, o mel se concentraram.

Vai a penetração rompendo nuvens
e devassando sóis tão fulgurantes
que nunca a vista humana os suportara,
mas, varado de luz, o coito segue.

E prossegue e se espraia de tal sorte
que, além de nós, além da própria vida,
como activa abstracção que se faz carne,
a ideia de gozar está gozando.

E num sofrer de gozo entre palavras,
menos que isto, sons, arquejos, ais,
um só espasmo em nós atinge o clímax:
é quando o amor morre de amor, divino.

Quantas vezes morremos um no outro,
no húmido subterrâneo da vagina,
nessa morte mais suave do que o sono:
a pausa dos sentidos, satisfeita.

Então a paz se instaura. A paz dos deuses,
estendidos na cama, quais estátuas
vestidas de suor, agradecendo
o que a um deus acrescenta o amor terrestre.

Carlos Drummond de Andrade, in 'O Amor Natural'

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Amar e Ser Amada

Quando as palavras
Se transformam num nada,
Escrevo violentamente
Para esquecer a dor,
Para recordar a saudade,
Para me centrar.
E se também isto te faz recuar,
Pois fica sabendo que também o sou.
Violentamente escrevo, purgo
E exponho de mim a vertigem,
O suspiro, o grito e a vontade
De amar e ser amada.

Vertigem

O vento entra pelos poros da pele, escapa-se por entre a roupa e toca a pele, entranha-se e penetra a alma, lembra-me que estou viva.
Ao longe, lá longe o mar canta entre murmúrios e rugidos. Fala de si, de acalmias e tempestades, de ondas gigantes e dos peixes no mar. Fala das brincadeiras com os navios e das escondidas com os faróis.
Debaixo dos meus pés adivinha-se uma falésia, banhada pelo mar e segura pelo vento.
Abro os braços e deixo-me ir na brisa. Inspiro profundamente, de coração apertado.
Há alguém atrás de mim? Alguém à minha espera? Tenho que esperar por alguém?
Não me lembro exactamente como fui ali ter, entre o torpor de sentires e pensares. O carro guiou-me e depois os pés. Deixei-me guiar até ali sem consciencializar onde estava. Quando finalmente desperto sinto um quase vazio debaixo dos pés, a sensação urgente da recordação de voar. Lembras-te? Abrias os braços, davas um passo e deixavas que o vento te sustivesse o tempo suficiente para voares. E passavas noites nesse embalo, enquanto o frio se entranhava entre a roupa, a chuva te banhava e a lua e as estrelas te iluminavam. Lembras-te?
Com a recordação vem a vertigem, brusca, intensa. Lembro-me. Só não me lembro como se faz. Os passos cambaleiam e relembro que estou viva, enquanto o corpo oscila no quase vazio. As memórias vão ficando mais intensas, mais vividas. Cambaleio e recuo. Ainda não, penso. Não quero dar este salto sem ter a certeza que ninguém me espera.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Loucos e Sérios

Aos mais presentes e aos mais ausentes, aos que ficaram e aos que partiram, aos de agora, aos de antes e aos que hão-de surgir, aos que só partilham um sorriso, um gesto ou uma dança e aos que partilham a vida inteira... Existe um lugar de honra para cada um de vós no meu coração.

Grata por se terem cruzado comigo, por serem espelhos tão diferentes, por questionarem e me mostrarem tantas formas diferentes de estar no mundo. Grata por aprender convosco. Grata por sentir o coração aquecer quando vos penso.

Grata por vós *


"Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila. Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.

A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos. Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.

Deles não quero resposta, quero meu avesso. Que me tragam dúvidas e angústias e aguentem o que há de pior em mim.

Para isso, só sendo louco.

Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.

Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta. Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria.

Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto.

Meus amigos são todos assim: metade brincadeira, metade seriedade.

Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.

Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que o sonho não desapareça.

Não quero amigos adultos nem chatos. Quero-os metade infância e outra metade velhice!

Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa.

Tenho amigos para saber quem eu sou. Pois os vendo loucos e santos, tontos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que "normalidade" é uma ilusão estéril."


Oscar Wilde

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Para além

Para além de uma palavra, de um sentido, de uma mensagem
Para além de uma imagem, fotografia ou aguarela
Muito para além, existe.
O que existe para além,
Não se escreve nem desenha,
Não se mostra, só por mostrar,
Muito para além do que se vê, ouve ou cheira.
Muito mais além está um sentido,
Um sentido, um conceito
Que, se o descrever, se perde o meu
E ganha o teu, assim como estas palavras
Ganham um sentido muito para além
Do meu, quando lidas ou entoadas.
E mesmo estas verdades não alcançam,
O que está além, não desenham
Nem descrevem todo um mundo que se adivinha.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Humildades

‎"Se me pedires, ou mesmo que não o faças, por-me-ei de joelhos, colocarei as minhas mãos sobre teus pés e baixarei a minha cabeça perante ti, entregar-me-ei a este acto com toda a humildade que possuo e pedirei que recebas este acto com a mesma entrega e a mesma humildade, para que dele nasça a partilha entre o meu dar e o teu receber, para que desta partilha se gere o amor incondicional, a humildade do dar e do receber num só acto."


Versão original aqui

Na humildade do dar,
Recebido com humildade.
Mesmo que simbólico,
Isto é o que dou...
Lado a lado na humildade,
É o que peço.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Ana, a Valente Graciosa

Dela recordo tanto.
O seu brio e força, a ferocidade com que defendia a família, a curiosidade e brilho, a inocência e a teimosia nos seus valores.
Ana Valente era o seu nome e dela herdei o primeiro nome.
Ana, a Graciosa, a cheia de graça. A mulher que recordo deve ter sido graciosa nos gestos perdidos da infância e adolescência. A que recordo tinha o corpo e a face bem marcada pelo trabalho árduo do campo, as rugas profundas debaixo das abas do chapéu ou do lenço, revelando os olhos azuis brilhantes, atentos, observadores. As mãos calejadas da enxada enquanto tentava recordar os tempos em que pediu ao pai para ser costureira e este a enviou para os campos, porque era assim que se fazia antigamente. Recordo com saudade os serões em que me lia as cópias que fazia e me mostrava os trabalhos de casa, da escola básica para adultos e em que era a aluna mais velha. Recordo, a propósito disso, da naturalidade com que dizia que não queria pedir a ninguém para lhe ler as cartas do correio, depois do meu avô falecer e, apesar dos 73 anos, ia aprender a ler. Recordo como, com a mesma atitude independente e determinada aproveitou para vender o tractor e comprar um burro. A carroça ainda existia de outros tempos e só foi necessário reparara-la. Não gostava de ser enganada, tinha uma enorme dificuldade em confiar em estranho e em todos os assuntos de família, esta mulher de coragem tinha uma palavra valida a dizer.
Ana, a Valente há-de ter sido graciosa com o seu corpo bem moldado pelo trabalho. Recordo o olhar de reconhecimento que me fez no hospital pouco antes da sua passagem, com a bata do hospital a esconder muito pouco do seu corpo seco e duro, enquanto me pedia para lhe tirar as amarras que lhe prendiam os braços. Tinha mais que fazer, queria ir para os campos, para casa, queria sair dali, daquele ambiente frio e despersonalizado. Recordo o ar de espanto quando percebeu que não conseguia andar. Recordo os jantares de família, em Lisboa, em que percorria todas as divisões da casa e se ia mostrando cada vez mais impaciente por estar fechada e confinada a quatro paredes. E a alegria que sentia quando a levavam de volta a casa, ao seu espaço aberto ao campo e ao mundo vivo e verde. Lembro-me dela quando procuro a janela mais próxima e quase me penduro para fora, à procura de verde e espaço aberto, quando estou em casas de cidade.
Ana, a Graciosa, recordava o quanto o tinha sido, quando era considerada esquisita na aldeia por ser das poucas loiras de olhos azuis e como se tinha casado com o Xico, também ele descendente dos invasores franceses, com os olhos azuis e cabelo loiro, no topo do seu metro e quase noventa. Recordo-me dela sempre que sou confrontada com a dureza dos meus tios e pai, com a incapacidade de demonstrar carinho e como eles contrastam com o meu tio mais novo, o que veio fora do tempo e onde ela, Ana, a Graciosa o pode finalmente ser. Graciosa e carinhosa.
Recordo-me das tardes partilhadas a arranjar azeitonas, enquanto me contava estórias do antigamente e, a meu pedido, largava as azeitonas e ia, deliciada, buscar o adufe para me cantar e tocar as musicas do antigamente. Recordo ao longe estes momentos e tantos outros e mantenho a recordação do seu olhar penetrante e curioso suspenso a minha frente.
Ana Valente de seu nome, de coração, de mãos, de corpo.
Recordo uma das imagens mais bonitas da minha memória, em que fui mostrar uma das terras ao pai do meu filho, entre penedos, vales, ribeiros e capelas e a vejo ao longe, vestida de preto, como manda a tradição e os costumes mas principalmente para não ser falada pela aldeia, curvada pelos anos da enxada e da rega a balde, a conduzir o burro e a carroça a transbordar de lenha para o fogão e lareira. Preparava-se para o Inverno, dizia-me ela, enquanto me recordo de olhar para o momento, contemplar a imagem parada no tempo e encher-me de calor, de apreço, de admiração, de orgulho, enquanto dizia de voz embargada pela emoção e beleza daquele quadro: Olha, é a minha Avó!
A fotografia é a dela.. no tempo em que o tempo lhe permitia não se lembrar que era valente e em que podia ser simples e graciosamente... Ana.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Profundidades

Talvez porque tudo o que é Belo

Também é triste.

Talvez porque quando se reconhece

E aceita essa tristeza,

Quando se mergulha nela,

Se esteja a mergulhar

Nas profundezas da nossa Alma.

Talvez porque nesse abismo,

Quando nos encontramos nele,

Encontramos também a Alegria

Mais profunda, a Alegria de estar Viva.

Talvez assim se cante.

Talvez assim se dance.

Talvez assim se Celebre a Vida

10:10:10

Já foi, já passou.
Puff, num instante.
Uns falam de portal, outros de viagens, outros ainda de mudanças.
E a mim quem me falou?
- Quantas línguas falam?
- Falo três: inglês, francês e português!
Mas entender, entender, só entendo a outra, aquela com que penso, com que falo, com que abraço, com que choro, com que sorrio. A que se expressa em gestos, em toques, em atitudes. É a que leio nos que me rodeiam. E o que lê?
Lê o que lê...
Lê as questões não resolvidas e as perguntas não respondidas.
Lê isso e um pouco mais.
Lê coisas que não interessam a ninguém.
Fala de coisas que não são traduzidas por palavras, seja lá em que língua for...
É o que dá estar a aprender a perder-me no mundo, perdida do mundo.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Make a Wish

- Deus lhe pague, minha filha!
Não faço a mais pequena ideia do que mudou em mim para ter feito as pazes com o trabalho onde me sinto mais inteira. Não faço a mais pequena ideia do que realmente mudou. Se foi a minha perspectiva das pessoas, se foi o ter aprendido a envolver-me enquanto me mantenho observadora, se foi ter aprendido a viver o momento onde estou, a estar presente ali, no meio da confusão e bagunça daquele sitio, onde quase toda a gente oferece aos outros aquilo que está na vida.
A intensidade do que se vive durante o tempo que ali estou é imensa. A atenção que dispenso aos outros é tantas vezes total.
Fico cansada de dizer que estou cansada fisicamente, acordo a pensar que gostava de me levantar e começar a mexer sem conseguir identificar cada um dos meus músculos, gostava de chegar a casa e conseguir ter energia para as coisas mais simples, preciso de pedir para me tratarem uma vez por semana, resmungo quando me fazem marcações sem ter vagas disponíveis... mas a frase mais simples com que sou presenteada, os gestos mais simples de agradecimento, um simples "Já não tenho tantas dores" ou "Já consigo fazer" qualquer coisa, perceber que alguém esperou uma hora por mim e no fim dizer-me que valia a pena a espera e que já percebia porque é que demorava tanto tempo com cada pessoa, eclipsam o estar num trabalho precário, as horas a mais de trabalho, os horários desumanos, as marcações em excesso e as dores no corpo.
Dou-me ao luxo de tirar os ténis e andar descalça pelo espaço, de desaparecer durante cinco minutos quando me chegam 3 pessoas ao mesmo tempo para serem tratadas, de pensar alto em frente a toda a gente, de me rir por nada, de fazer cocegas a todos os pés que espreitam das marquesas, mesmo não conhecendo os donos dos ditos, de fazer shiatsu e outros trabalhos energéticos descaradamente, de explicar pormenorizadamente o porque de estar a fazer o que estou, de por as pessoas a meditar no fim dos exercícios ou de os orientar em visualizações positivas, de escolher um gabinete discreto para fazer uma sesta de 10 minutos ao almoço, tudo isto sob o olhar de espanto dos meus colegas de profissão.
Nas minhas costas passa-se um pouco de tudo, desde as crónicas de escárnio e mal dizer até à admiração dos resultados do meu trabalho com as pessoas. Não sigo as regras, adapto tudo e mais alguma coisa que possa, faço piadas mas não conversas de café, não cumpro horários de saída (e esforço-me por cumprir os de entrada), trato de forma igual a chefe, o colega, o utente e o bombeiro que o transporta, dependendo apenas do quanto Ser Humano está.
Ofereço o meu amor, o meu corpo e esforço, a minha atenção, os meus saberes, as minhas mãos, o meu sorriso e abraço, os meus mimos e cuidados mais simples, o meu brio, a minha energia e alma enquanto me delicio com o esquecer-me de mim em troca de um "Deus lhe pague".
- Já me paga!
É o que respondo com um sorriso.

domingo, 19 de setembro de 2010

Instante Vivo

Se tanto me dói que as coisas passem
É porque cada instante em mim foi vivo
Na busca de um bem definitivo
Em que as coisas de Amor se eternizassem

Sophia de Mello Breyner

Caminhos Desconhecidos

Perdida pelo monte de onde se vê a lua, existe uma gruta de labirintos, por onde espreitam luminosidades e dragões.
No labirinto fazem-se paragens e descansos, momentos de observação da escuridão das aguas paradas e dos medos, seus companheiros.
Uma pedra convida-nos: "Sente-se, por favor e veja". As árvores e o verde, o céu e o azul ficam distorcidos e ao contrario quando reflectidos. É preciso levantar mais os olhos para ver através dos olhos da gruta e perceber a ilusão.
Perdida pela gruta fica um túnel, não um qualquer à escolha, mas o mais escuro e sinistro. Entra na profundidade da terra e da agua, o ventre escuro sem fim à vista.
Ali habitam os dragões, os de verdade, não os das lendas. Ali vivem os dragões que nos consomem por dentro, nos dilaceram a alma e nos deixam reduzidos a um nada de nós. Enleiam-se dentro de nós e esperam enquanto nos dizem baixinho: " Estou com medo".
Numa curva desse caminho acontece um momento de decisão. Em frente o desconhecido, para trás os reflexos e nada mais. Respira-se fundo e os passos decidem por nós quando se diz: "Para trás? Mas eu já conheço esse caminho!"
Mais uma curva, apenas uma e um raio de luz alimenta a esperança: "É por aqui!"
A escuridão durou só mais um segundo, o tempo de uma esquina dobrada, de uma decisão tomada e a recompensa vem logo a seguir quando a passagem alarga e se abre numa clareira de espaço, de vida, de luz.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Vens ou ficas?

Existe uma voz no vento de Sul que me canta baixinho ao ouvido...
Umas vezes canta mais alto (ou serei eu que ouço melhor), outras mais baixo.
Dentro do vento existe uma voz e dentro da voz um verso, que me relembra um acordo que fiz noutra vida qualquer.

O verso conta estórias de pessoas juntas a quererem aprender a viver juntas. Conta estórias de vales floridos na primavera, de fontes de agua limpa e fresca, de arvores e duendes.
Conta-me estórias de partilha e de noites à volta do fogão a lenha, de pão quente acabado de cozer e de tempo para contemplar. Conta-me como o meu filho cresce a subir às arvores, sem medo de sair à rua e a confiar nas pessoas.
Conta-me que tenho de passar por ali para regressar aqui.
Conta-me essas e outras estórias e vai-me mostrando o caminho.

Por medo, fiz-lhe ouvidos moucos durante algum tempo... ou então não era o tempo.
Esse tempo vai chegando ou eu não sabia e já estava aqui.

O aqui e o ali misturam-se no vento e no tempo e as aventuras acontecem já aqui.
Vou... e fico.
E se ficar é porque vou e se for é porque fico.
E tu, vens ou ficas?

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

O Beijo das Palavras

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca,
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto,
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído,
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.

de Alexandre O'Neil

sábado, 21 de agosto de 2010

Don't get closer

Se não te importas...
Recua um passo para não te ferir ou serás tu que possuis o condão?
Não te aproximes mais, recua um passo, um apenas e reflecte, reflecte-te se o quiseres mas não te aproximes mais, dá-me o espaço para me rebelar.
Se não te importas...
Não devolvas o eco do meu grito,
Nem repitas os meus gestos.
Dá-me o espaço para a tempestade passar e não sopres as minhas velas, se não te importas... Elas rasgam e chicoteiam e assobiam junto aos meus e aos teus ouvidos, se não te afastas um passo.
Um passo, apenas um passo de distancia, se não te importas.
Só te peço isso, um passo.
Mas não te ausentes na distancia...

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Temperamento

Sabem a forma como qualquer felino baixa ligeiramente a cabeça e coloca as orelhas para trás quando se sente irritado? Pois.... miúda, não escrevas depressa, não...

segunda-feira, 5 de julho de 2010

A Céu Aberto

Porque somos apenas Um nesta sala e porque desde à cerca de um ano o meu processo de auto-conhecimento tem sido relacional, tenho estado menos assídua neste cantinho do meu coração. Não o abandono, nem construo outro. Vou voltar de quando em quando, sempre que tenha necessidade ou que me queira partilhar por linhas e letras. Mas neste momento o meu processo de aprendizagem, desbloqueio, exposição e partilha está a ser feito de forma relacional a céu aberto. Grata por terem estado desse lado, por, apesar das minhas resistências se terem relacionado comigo, mesmo que apenas de forma virtual, pelas pessoas que conheci e por aquelas que, mais ou menos anonimamente, foram acompanhando os meus passos e alucinações.
Grata por vós*

domingo, 4 de julho de 2010

A Espiral do Coração

"E assim começo a entender a razão pela qual as relações existem - a minha relação com esta mesa, com este copo de agua e com vocês, que partilham este tempo e este espaço comigo. E eu não só me conheço a partir da minha relação convosco, mas, literalmente, defino-me a partir dela. Ou seja: eu defino-me e nesse sentido recrio quem eu sou em relação a quem vocês são. Eis um pormenor interessante, eu não posso recriar-me como alguma coisa que vocês não sejam. Ou seja: só posso ver em mim o que estou disposto a ver em vocês. E aquilo que não conseguir ver em vocês, nunca encontrarei em mim, porque não sei que existe. Assim sendo, eu não posso encontrar a divindade em mim até procurar, descobrir e reconhecer a divindade em vocês. E se eu não conseguir conhecer e reconhecer a divindade em vocês, também não o posso fazer em mim, nem tão-pouco posso conhecer qualquer coisa boa acerca de mim. Nem, nesse sentido, qualquer coisa má. Porque não pode existir aqui nada que não exista ali. E as razões para isso são inumeras; e uma das mais importantes é que só existe um de nós na sala. Não há mais ninguém aqui. Então, descobrimos que as relações ocupam um lugar unico na nossa vida: não só um lugar importante, mas um lugar insubstituível. Quero dizer, não as podemos substituir. Não há nada que substitua as relações, que nos dê o que as relações nos dão, porque as relações são a única experiência da vida que nos dá uma experiência de nós mesmo na vida. (...) Quando compreendemos o lugar sagrado que as relações ocupam na nossa experiência, veremos as relações como sendo realmente sagradas - não apenas em pensamento, não apenas em palavras, mas na realidade. E as coisas que fazemos nas relações começam a mudar dramaticamente. (...) a nossa função principal na relação passa a ser olhar profundamente para o outro, para ver no outro a visão mais grandiosa que alguma vez se podia imaginar; e até mesmo para o ajudar a criar isso, na medida em que o outro escolhe evitar cria-lo. Então uma coisa que os parceiros passam a fazer um com o outro (e um pelo outro) é, em vez de receber, procurar dar coisas um ao outro, dar ao parceiro o poder de exprimir e sentir quem ele realmente é, porque reconhecem a importância vital disso. E vemos que isso é, de facto, a raison de d'être de todas as relações, a sua própria razão de ser"
. . .
Neale Donald Walsch in "Conselhos de Vida sobre as Relações Pessoais"