quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Numa vida depois da última - parte II




terça-feira, 30 de setembro de 2014

Mudanças
Um destes dias as luzes apagaram-se por aqui e finalmente o unico candeeiro que ilumina o quintal teve o merecido descanso, o que me permitiu olhar bem fundo na extensão das estrelas que por aqui nos brindam.
Longe da cidade, dos carros, do ruido audível e visível.... quando se vive num local destes é quase inevitável sentirmo-nos de férias. O ir ali tratar de qualquer coisa transforma-se num passeio entre sobreiros e pinheiros mansos, entre o mar e o cheiro da terra.

Vim para sul, não tanto assim para sul (não é preciso) mas para sul que chegue. Para a aldeia dos meus sonhos, para onde os tambores soaram a primeira vez, de onde senti a pulsão de escrever publicamente e o onde o fiz, para onde os meus pés fugiam sempre que podia.

Vim para uma vida depois da ultima. A ultima despedaçou-me... trouxe-me mais um anjo, mais um filho, mais uma esperança, mais separação. Os restos que restam de mim da vida antes dessa, não sei deles.... foram para qualquer lado, separaram-se de mim e deixaram-me diferente. Nem pior nem melhor... talvez a conhecer um pouco mais sobre o meu melhor e o meu pior... mas não sou a mesma.

Definitivamente diferente.... reli todo o blog anterior e, apesar de ser eu, apesar de reconhecer a essência, a frontalidade e a forma de escrita, a loucura e alucinação não é a mesma... a necessidade de fé não é a mesma, as ferramentas não são as mesmas, a forma de estar mudou, tudo mudou e como dizia alguém, "muda-se o ser, muda-se a confiança, todo o mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades"...

Aqui, agora, nesta vida que é agora a minha, tudo se descobre e constrói de pequenos nadas, de pequenas coisas, de pequenos grandes gestos.

E o que sobrou de mim, após quase um ano antes de agora? Estou a descobrir... a descobrir devagar e sem procurar.

Numa vida depois da última - Parte I



terça-feira, 16 de setembro de 2014


Onde as estórias continuam
Alguém se lembra?
Alguém se lembra do início de tudo isto? De quando os tambores soavam?
A estória continua uma vida depois da última e sem saber como termina...
Conta uma estória para acordar, outra para adormecer e outra para viver.
Ou pode ser a mesma ou nenhuma ou podemos só deixar o silencia conversar.
As estórias continuam aqui de uma forma diferente, com outra vida a falar.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Numb

E agora podia ficar dormente e não sentia? Só um bocadinho? Ninguém dava por nada e eu andava distraída de mim e dos outros, perdia ligações directas e outras menos directas e ficava dormente, só por um bocadinho...

Os lábios ficavam dormentes, as faces, os olhos, os ombros, os braços, as mãos, devagarinho. Depois eram os seios, o peito, as costas. A seguir as pernas a começar nos pés. Um dedo e depois outro, as pernas, as coxas, devagarinho para nem eu dar por isso. Por fim, ficavam dormentes o sexo, as nádegas, o ventre. Ninguém, nem eu, reparava e adormecia-me, embalava-me para não sentir, nem com estes nem com outros sentidos.

Sem reparar começava a saborear menos, a deixar de cheirar, a visão enevoava-se, deixava de ouvir. Cada vez mais distante e entorpecida, adormecia os sentidos e os outros para além destes.

Perdia o sentido de mim e do que me rodeia, ficava o silêncio sem saber que o era pois até a mente ficava dormente. Os pensamentos deixavam de se formar, as intuições e visões de surgir, deixava de sentir, de me ligar, baixinho para não reparar.

Ficava o silêncio sem saber que o era, silêncio. Ficava o vazio, a escuridão e ninguém sabia pois nem a memória da luz permanecia. Ficava o nada que era tudo o que existia. Não ficavam memórias nem projecções, não existiam sonhos nem recordações e nem o agora permanecia.
Sem tempo, sem prazos, sem minutos, sem espaço.

Não ficava nada sem saber que o era, nada. Sem sonhos nem esperanças, sem quedas nem voos, sem abismos nem saltos de fé, sem mim nem os outros, sem coragem nem cobardia, sem desistir, só adormecia...
Só um bocadinho, pode ser? E quando regressasse voltava vazia, talvez noutro corpo, outra vez, podia ser?

Ser humano por vezes pode ser cansativo e apetecia-me ficar dormente e não sentir nada, desligar o botão e deixar de ser, só um bocadinho, pode ser? Sem químicos, nem vinhos, sem hormonas naturais nem chás, sem meditações transcendentais.

Não é a morte que peço, que fique bem claro pois que essa, assim dormente seria uma não ilusão. Só peço a dormência de não sentir nem decidir, de não pensar nem acreditar, de não falar nem ouvir, de ficar vazia de mim e do mundo.

Só um bocadinho, pode ser?

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Liberté

Sur mes cahiers d'écolier
Sur mon pupitre et les arbres
Sur le sable de neige
J'écris ton nom

Sur toutes les pages lues
Sur toutes les pages blanches
Pierre sang papier ou cendre
J'écris ton nom

Sur les images dorées
Sur les armes des guerriers
Sur la couronne des rois
J'écris ton nom

Sur la jungle et le désert
Sur les nids sur les genêts
Sur l'écho de mon enfance
J'écris ton nom

Sur les merveilles des nuits
Sur le pain blanc des journées
Sur les saisons fiancées
J'écris ton nom

Sur tous mes chiffons d'azur
Sur l'étang soleil moisi
Sur le lac lune vivante
J'écris ton nom

Sur les champs sur l'horizon
Sur les ailes des oiseaux
Et sur le moulin des ombres
J'écris ton nom

Sur chaque bouffées d'aurore
Sur la mer sur les bateaux
Sur la montagne démente
J'écris ton nom

Sur la mousse des nuages
Sur les sueurs de l'orage
Sur la pluie épaisse et fade
J'écris ton nom

Sur les formes scintillantes
Sur les cloches des couleurs
Sur la vérité physique
J'écris ton nom

Sur les sentiers éveillés
Sur les routes déployées
Sur les places qui débordent
J'écris ton nom

Sur la lampe qui s'allume
Sur la lampe qui s'éteint
Sur mes raisons réunies
J'écris ton nom

Sur le fruit coupé en deux
Du miroir et de ma chambre
Sur mon lit coquille vide
J'écris ton nom

Sur mon chien gourmand et tendre
Sur ses oreilles dressées
Sur sa patte maladroite
J'écris ton nom

Sur le tremplin de ma porte
Sur les objets familiers
Sur le flot du feu béni
J'écris ton nom

Sur toute chair accordée
Sur le front de mes amis
Sur chaque main qui se tend
J'écris ton nom

Sur la vitre des surprises
Sur les lèvres attendries
Bien au-dessus du silence
J'écris ton nom

Sur mes refuges détruits
Sur mes phares écroulés
Sur les murs de mon ennui
J'écris ton nom

Sur l'absence sans désir
Sur la solitude nue
Sur les marches de la mort
J'écris ton nom

Sur la santé revenue
Sur le risque disparu
Sur l'espoir sans souvenir
J'écris ton nom

Et par le pouvoir d'un mot
Je recommence ma vie
Je suis né pour te connaître
Pour te nommer

Liberté


Paul Eluard
in Poésies et vérités, 1942

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

E ainda assim

E ainda assim, apesar da vida me colocar desafios à frente para enfrentar, apesar de saber que o teu abraço não mente na essência mas é falso na aparência, apesar de te sentir preso a preconceitos, sou eu que misturo a dor e a raiva para deixar de me sentir prisioneira.
Como num filme antigo, espero que a onda do esquecimento apague as palavras escritas em segredo nas margens do mar e que leve consigo as esperanças a que me prendo.
Nem que seja apenas a esperança de que aprendas a envelhecer.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Coragem de Ser Só

Uma arma de triunfo te dei, sobre todas as outras: a coragem de seres só; deixou de te afectar como argumento ou força esmagadora a alheia opinião, as ligeiras correntes e os redemoinhos do mar; rocha pequena, mas segura, sobre ti se hão-de erguer, para que vençam a noite, as luzes salvadoras; não te prendem os louvores dos que te querem aliado, nem as ameaças dos contrários; traçaste a tua rota e hás-de segui-la até ao fim, sem que te desviem as variadas pressões.
Só e constante, mesmo em face do tempo; os anos que rolam tu os consideras elemento de experiência; para os homens futuros episódios sem valor; se eles te abaterem, só terão abatido o que há de menos valioso; e contribuirão para que melhor se afirme o que puseste como lição da tua vida; a muitos absorve o actual; mas a ti, que tens como tua grande linha de cultura, e porventura tua alma, a posse das largas perspectivas, a hora começando te vê firme e firme te abandona.
Nenhuma estóica rigidez neste teu porte; antes a compassada lentidão, a facilidade maleável de bom ginasta; não é por amor da Humanidade que hás-de perder as mais fundas qualidades de homem.
Em tal espelho me revejo, eu que tomei tua alma incerta e a guiei; e contemplo como doce oferenda, como a mais bela visão que me poderias conceder, a clara manhã que já de ti desponta e lentamente progredindo há-de acabar por embalar o universo nos seus braços de luz.

Agostinho da Silva, in 'Considerações'

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

From blue to Green

I am so thirsty for the marvelous that only the marvelous has power over me. Anything I can not transform into something marvelous, I let go.

Anais Nin

sábado, 1 de janeiro de 2011

Letter to my Heart

Eu sei que não sabes estar parado, sossegado. Sei que estás tão sensível que qualquer brisa que entre neste momento, te faz doer cada pedacinho. É demasiado cedo ainda para conseguires sentir-te inteiro. Mas esse dia vai chegar, quando menos o esperares vais conseguir sentir-te inteiro e forte.
Agora, neste momento, o que estou a fazer é a criar o ambiente de paz e tranquilidade que necessitas para que cada pedaço que julgas perdido, sare com o mínimo de cicatrizes.
Lembra-te do que tens de extraordinário, do que consegues fazer e dar mesmo assim, despedaçado. Lembra-te da compaixão, gentileza, da intensidade, da conexão, da empatia, da humildade, da profundidade de sentimentos que consegues alcançar. Lembra-te da beleza em ti e nos outros, da paixão, da luz, da gratidão e curiosidade. Lembra-te da harmonia, da aventura, da abertura, da vontade de aprender. Lembra-te do humor e da criatividade.
Liberta-te da raiva, liberta-a. É natural que a sintas mas não a contenhas ou vai acabar por se escapar sem controle.
Leva o tempo que for necessário, sem pressas nem exigências e não te sintas perdido nem magoado pelas palavras e atitudes dos outros. Estou aqui para me assegurar que estás seguro e resguardado, que tens os cuidados e mimos necessários para te sentires quente e confortável enquanto recuperas. Estou aqui para te dar a mão agora, enquanto te sentes perdido e despedaçado e continuarei a estar quando começares a dar os primeiros passos outra vez.
Estou aqui, ao teu lado, à espera para continuar a Viver Inteira.
Com todo o meu Amor *

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Always with Me

(Tradução)

Somewhere, a voice calls, in the depths of my heart
May I always be dreaming, the dreams that move my heart

So many tears of sadness, uncountable through and through
I know on the other side of them I'll find you

Everytime we fall down to the ground we look up to the blue sky above
We wake to it's blueness, as for the first time

Though the road is long and lonely and the end far away, out of sight
I can with these two arms embrace the light

As I bid farewell my heart stops, in tenderness I feel
My silent empty body begins to listen to what is real

The wonder of living, the wonder of dying
The wind, town, and flowers, we all dance one unity

Somewhere a voice calls in the depths of my heart
keep dreaming your dreams, don't ever let them part

Why speak of all your sadness or of life's painfull woes
Instead let the same lips sing a gentle song for you

The whispering voice, we never want to forget,
in each passing memory always there to guide you

When a miror has been broken, shattered pieces scattered on the ground
Glimpses of new life, reflected all around

Window of beginning, stillness, new light of the dawn
Let my silent, empty body be filled and reborn

No need to search outside, nor sail across the sea
Cause here shining inside me, it's right here inside me

I've found a brightness, it's always with me


Kimura Yumi
in Viagem de Chihiro

Fértil

Terreno fértil! É só isso que os nossos sonhos necessitam para que se concretizem. Há que ter paciência e saber esperar, há que cuidar do sonho, mudar o contexto onde se insere, quando o terreno não é fértil. Há que saber transplantá-lo, retirar as folhas secas e leva-lo connosco, para onde quer que formos.
São os meus sonhos, são eles que me fazem mover, mudar, crescer, procurar. É por eles que me desassossego e é com eles que me ocupo. São eles que me guiam, quando tudo o resto falha.
E são coisas simples e tranquilas, os meus sonhos. Carregam em si o potencial de flores e frutos quando o momento e local e o tempo propicio chegar. Nunca tudo ao mesmo tempo mas um de cada vez. E se o terreno onde se encontra não é fértil, pois que me resta apenas pegar no sonho, coloca-lo cuidadosamente num vaso bonito e voltar a viver, enquanto mantenho a alma aberta aos sinais que me indicam que aquele terreno tem, não o aspecto, mas as características básicas para que o meu sonho posso crescer, dar flores na primavera e frutos no verão.

Pedra Filosofal

Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos

como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam
como estas árvores que gritam
em bebedeiras de azul
eles não sabem que sonho
é vinho, é espuma, é fermento
bichinho alacre e sedento
de focinho pontiagudo
no perpétuo movimento

Eles não sabem que o sonho
é tela é cor é pincel
base, fuste ou capitel
arco em ogiva, vitral

Pináculo de catedral
contraponto, sinfonia
máscara grega, magia
que é retorta de alquimista

mapa do mundo distante
Rosa dos Ventos Infante
caravela quinhentista
que é cabo da Boa-Esperança

Ouro, canela, marfim
florete de espadachim
bastidor, passo de dança
Columbina e Arlequim

passarola voadora
pára-raios, locomotiva
barco de proa festiva
alto-forno, geradora

cisão do átomo, radar
ultra-som, televisão
desembarque em foguetão
na superfície lunar

Eles não sabem nem sonham
que o sonho comanda a vida
e que sempre que o homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos duma criança

António Gedeão

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Continuar

Quero continuar
A acreditar
Não em ti
Em mim
Quero continuar
A acreditar
Não em ti
Mas em mim
E na grandeza
De amar
Que tenho
Contido
Em ti
Em mim
*
*
Enquanto o frio se instala
E me gela a alma

domingo, 26 de dezembro de 2010

Desvanecer

"Love never dies a natural death. It dies because we don't know how to replenish it's source. It dies of blindness and errors and betrayals. It dies of illness and wounds; it dies of weariness, of witherings, of tarnishings."
Anais Nin
*
*
Não é que o amor morra, mas desvanece-se, extingue-se. Nunca de forma natural. O amor nunca morre de morte natural. Morre porque nós não sabemos como procurar a sua fonte. Morre por sermos cegos, pelos erros e traições . Morre de doença e das feridas; morre de exaustão, das devastações, morre porque o manchamos e deixa de brilhar.

sábado, 25 de dezembro de 2010

De Corpo e Alma

A lover knows only humility, he has no choice.
He steals into your alley at night, he has no choice.
He longs to kiss every lock of your hair, don't fret,
he has no choice.
In his frenzied love for you, he longs to break the chains of his imprisonment,
he has no choice.
A lover asked his beloved:
Do you love yourself more than you love me?
Beloved replied: I have died to myself and I live for you.
I've disappeared from myself and my attributes,
I am present only for you.
I've forgotten all my learnings,
but from knowing you I've become a scholar.
I've lost all my strength, but from your power I am able.
I love myself...I love you.
I love you...I love myself.
I am your lover, come to my side,
I will open the gate to your love.
Come settle with me, let us be neighbours to the stars.
You have been hiding so long, endlessly drifting in the sea of my love.
Even so, you have always been connected to me.
Concealed, revealed, in the unknown, in the un-manifest.
I am life itself.
You have been a prisoner of a little pond,
I am the ocean and its turbulent flood.
Come merge with me,
leave this world of ignorance.
Be with me, I will open the gate to your love.
I desire you more than food or drink
My body my senses my mind hunger for your taste
I can sense your presence in my heart
although you belong to all the world
I wait with silent passïon for one gesture one glance
from you.
Deepak Chopra
*
*
Quando não existem tempos, nem momentos, porque quem ama não tem escolha.
*
*
So, please, release me...
*

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Feliz Nascimento

Natal significa Nascimento.
Sem estar ligada a nenhuma religião consigo perceber que dizer a alguém "Feliz Nascimento" pode transformar toda a forma de estar nesta época natalícia... ou seja nesta época em que nos é dada a hipótese de voltar a nascer. Ou de nascer para uma consciência diferente, para uma consciência ampliada de si e dos outros. Sentimos um pouco o significado que a expressão pode ter sobre nós quando temos actos de bondade e generosidade (no fundo de empatia) com estranhos e outros menos estranhos, quando resolvemos mimar-nos um pouco e oferecer a nós próprios a prenda de nos permitimos estar mais em sintonia com o que somos, quando nos relacionamos connosco e com os outros. A perspectiva de que isso não ocorra, geralmente, conduz-nos a estados de desconforto, melancolia e tristeza nesta altura do ano. Quando pressentimos que estamos a viver este momento de uma forma ligeiramente desviada.
Curioso como esta hipótese acontece entre o Solstício Inverno, em que a noite mais longa acontece e a promessa de sol surge no horizonte, e a passagem do ano quando sentimos claramente que termina um ciclo e começa outro. Entre essas duas datas ocorre a hipótese de Nascimento do melhor em cada um de nós. Quando esse nascimento ocorre, desta forma, em consciência, ele pode manter-se e ser celebrado a vida inteira, todos os dias, a todas as horas, em cada momento.
Nessa perspectiva, os meus votos partilhados para este Nascimento são simples.
Que sejamos sempre capazes de aprender a transformar as nossas mágoas e tristezas em motivos para sorrir. Que as nossas dores nunca nos impeçam de sentir e perceber a dor dos outros e que tenhamos também a capacidade de os fazer sorrir. Que tenhamos sempre a abertura de espírito e a visão de aceitar que somos humanos e cometemos erros, que às vezes magoamos os outros mas que estamos sempre a tempo de pedir desculpas pela dor que causamos, de aprender com eles e assim dar espaço para cometer e aprender com erros novos. De passado algum tempo percebermos que afinal não existem erros, nem nossos nem dos outros, e que de outra forma não teríamos a possibilidade de aprender.
Que tudo acontece exactamente como têm de acontecer e que pré-ocuparmo-nos com isso não muda nada. Que muitas das coisas com que nos preocupamos nunca acontecem e que os Ses nunca deixaram histórias para contar. Que, depois de acontecer uma mudança, revoltarmos-nos com ela só serve para atrasar o processo de aprendizagem. Que sejamos capazes de reconhecer a beleza contida nesse processo e
Que sejamos sempre capazes de perceber que o que mais nos incomoda nos outros é simplesmente o que mais tentamos esconder de nós mesmos. Que sejamos capazes de o reconhecer em nós e de aprender a expor e a trazer para a luz do dia essas questões, de forma a nunca se transformarem em fantasmas que nos ensombram.
Que o maior e mais forte acto de coragem é dizer, Sou frágil.
Que sejamos humildes sem nos deixarmos humilhar e perceber que é a pessoa mais humilde que tem menos motivos para ser humilhada.
Que nunca confundamos leveza e alegria com superficialidade e futilidade. A alegria e a leveza é um estado que nasce após um estado de intensa dor, em que nos dispomos a ir ao poço mais fundo da nossa alma limpar o lodo acumulado. Quando o fazemos com esse objectivo, invariavelmente regressamos à tona com o maior dos tesouros. O Amor e aceitação ao que somos, ao que estamos, ao que vemos reflectido no espelho dos olhos dos outros. E que só no poder dessa pérola podemos ver e sentir os outros da mesma forma. E que quando descobrimos essa pérola não reflectimos, não reagimos quando os outros nos julgam. Adquirimos a capacidade de compreender os motivos dessa acção e de agir para um bem comum.
Que aprendamos a aceitar sem nos resignarmos a circunstancias em que nos tornamos vitimas por escolha própria.
Que mais ninguém a não ser nós mesmos temos a possibilidade e o poder de mudar as regras do jogo da nossa vida, de romper com limitações e situações, de reinventar a nossa realidade, que por vezes basta mudar a perspectiva e dizer um redondo, Não quero isto para mim, Não quero ser assim, de corpo, alma e coração para que as verdadeiras mudanças e nascimentos aconteçam.
Que a felicidade é feita de coisas muito simples, de pequenos gestos, toques e olhares, da aceitação e valorização do que somos e do que temos. Que a verdadeira felicidade surge quando estamos ligados ao que somos, quando o que fazemos, sentimos, pensamos e dizemos está em harmonia.
Que, façam o que fizerem, vão onde forem, amem quem amarem, o façam inteiros e presentes, de corpo e alma e mente, cientes que todos somos divinamente perfeitos nas nossas imperfeições.
Que é natural ter dúvidas e não saber o que fazer. Que é natural ter medo. Isso acontece quando deixamos de nos ouvir, quando deixamos de ouvir o que o nosso coração sabe. Quando isso acontece aprendam a ficar quietos, a saber esperar, não a espera do bater do dedo para que passe depressa, mas a espera activa, em que a paciência, a aceitação, o silêncio, a empatia e a alegria são cultivadas, para que, quando a espera termine, possam germinar e crescer no vaso que escolherem com o vosso coração.
Como dizia a outra autora, quando não souberem o que fazer, esperem e escutem até a vossa mente silenciar e possam ouvir claramente a voz do vosso coração.
E que nunca esqueçam que um nascimento é um parto. E que por muito doloroso que por vezes seja, o ser que nasce nesse momento tem a Vida pela frente e é puro potencial.
Com todo o meu amor...
Um Feliz Nascimento *

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Reflexões

É mesmo amor, isso que sentes
Ou simples necessidade
De te olhares reflectido
Num espelho partido?

Pois que estranho
Essa estranheza sem fim
De me sentir partida
E, ainda assim,
Te amar e querer dar
Com cada pedaço de mim.

Se te sentes não aceite
Quando espreitas
Este espelho, considera
Que, se mais não te dou
Talvez seja porque,
Estranhamente, rejeitas
O que te ofereço e o que sou.

Considera também, amor,
Que quando te desvias,
Algo se rasga
E a imagem que espreitas
Regressa aos teus olhos
E aos teus sentidos
Com o inconfundível gosto
A sangue derramado,
Típico de corações partidos.

domingo, 19 de dezembro de 2010

Coisas do Estar

Gosto de calor, de aquecedores e sacos de agua quente, de mantas e cobertores, de cachecóis e abafadores, de chá de rooibos e de frutos vermelhos, de canela, do cheiro e crepitar da lareira, de pão quente com manteiga, de doce de gila e de melancia, de queijo de ovelha, de rodilhas, de palavras e coisas antigas, de café sem açúcar e de chocolate, do mar, das florestas, de cascatas, da montanha e de praias desertas, de passear de mãos dada, de dormir tarde e não ter hora de acordar e de o fazer aconchegada, da cor do céu em Setembro, do por do sol, de gatos, de estar bem acompanhada, de estar sozinha, de escrever e meditar, de mudar de casa, de me perder, de viajar, de conduzir, de dormir na praia, de amoras silvestres e de sopa de urtigas, de ouvir musica e dançar descalça, das palavras que preenchem os vazios, do silêncio quando não há palavras, de abraçar e ser abraçada, de escrever em esplanadas desertas, de paisagens inspiradoras e abertas, de gentes, de bom vinho e do som do violoncelo e do violino, de estações e aeroportos, de ver as pessoas passar enquanto me deito a adivinhar, de sentir a chuva e o cheiro da terra molhada, de regressar a mim quando não me sinto segura, de virar páginas e dobrar esquinas, de recomeçar, de ver o meu filho crescer, de ver as estações mudar, de rugas e cabelos brancos, de me sentir amada e desejada, de aprender coisas novas e de recordar coisas passadas, de perfeitas imperfeições, de novos olhares, de poesia e de contos de fantasia, de histórias de vida e de epifanias, de sonhar acordada, de ouvir as verdades dos outros e viver as do meu coração, de dormir tranquila, de paz e agitação, de banhos demorados e, de preferência, acompanhados, de romantismo quando estou apaixonada e de jogos de sedução, de hera e de gerberas, de apanhar fruta das árvores, de oliveiras, de fazer sestas na relva, de dança e taichi, de transpirar, de quintas escondidas, de grutas, capelas e igrejas antigas, de templos e de artes perdidas, de andar de bicicleta e de caminhar, de bróculos, de cenouras, de óculos escuros, de brincos, pulseiras e colares, de chávenas de chá, de livros, de pincéis, de sótãos, de escadas em caracol e de rodopiar, de fazer desenhos na areia, de puzzles, de coisas simples e de avelãs, de olhos, de mãos, de lábios e de pessoas loucas, simples e genuínas.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Frágil

Quando a vida nos troca as voltas e nos deixa ao sabor dos sonhos naufragados e recuperados, a baloiçarem, mal amparados em frágeis embarcações de papel.
Quando a lógica observa irónica e o sentimento coloca o coração nas mãos e ambos dizem, Ai, que se vai afundar. E contra toda a lógica o fino papel insiste em se manter à tona, suspenso nas águas por uma magia qualquer, ensopado, é certo, de medos, de fantasmas, mas mantém-se corajosamente a baloiçar por cima das ondas.
É que ele guarda dentro de si muita da fé que contenho, a fé no melhor de mim e de cada um de nós, no acreditar sem sentido, nos milagres e conquistas.
Quando um movimento brusco o faz baloiçar um pouco mais, quando ameaça ser afundado por um balanço ou sugado por um remoinho uma ou, às vezes, mais mãos o amparam e ele, por milagre, insiste em se manter à tona.
E enquanto insisto em continuar a acreditar, com todas as razões para o fazer e no fundo sem absolutamente nenhuma, por vezes desalentada, por vezes desesperada, por vezes zangada, uma parte de mim observa espantada o frágil barco de papel e reconhece o milagre que o sustem, enquanto uma outra parte insiste em me sussurrar ao ouvido, O quê, mas ainda acreditas?
Fragilidade e coragem, milagre e teimosia. O sonho e a fé não dependem da embarcação que os contém, é o que a minha alma responde. Mas, às vezes, só a ouço passado uns dias.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

202

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* .:::. São as vezes que aqui vim partilhar algo de mim .:::. *
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terça-feira, 30 de novembro de 2010

A Princesa e a Ervilha

"Reescreva, usando no máximo 400 palavras, um conto de fadas. E se o Capuchinho Vermelho fosse o mau da fita? E se o sapato servisse mesmo a uma das irmãs?"

Era uma vez um príncipe que procurava uma princesa verdadeira. Uma daquelas de verdade, sensível e genuína. Procurou por todo o seu reino e ainda mais além. Foi aos confins da terra e acabou por regressar a casa desanimado e sem esperança, pois todas as princesas que encontrou não pareciam, aos seus olhos, verdadeiras princesas. Todas elas tinham alguma característica que o convenciam que não eram princesas genuínas.

Numa noite de tempestade em que o vento e a chuva reinavam, alguém bateu à porta do castelo. Quando abriram depararam-se com uma donzela ensopada e com ar infeliz que afirmava ser uma verdadeira princesa. A rainha, quando a viu, duvidou imediatamente. Como poderia uma princesa de verdade sujeitar-se a vir a pé até ao castelo e apresentar-se naquele estado a si e ao seu filho? Não lhe parecia possível. Mas o príncipe viu qualquer coisa. Ele não sabia bem o quê. Talvez um brilho diferente, um jeito de entoar as palavras, de andar que o encantou. A rainha, mãe conhecedora do seu filho e mulher experiente notou o estado de encantamento do príncipe e pensou: Princesa ou feiticeira, esta noite se verá quem és! Mandou servir uma refeição quente à suposta princesa e foi ao quarto onde ela iria dormir. Desfez a cama e colocou uma ervilha e de seguida vinte e um colchões empilhados. Fez a cama e esperou pela manhã seguinte para comprovar a sensibilidade da princesa.

De manhã quando acordou esperou todo o pequeno-almoço que a princesa e o príncipe descessem dos quartos para expor a princesa e o seu teste. Esperou e esperou e, já farta de esperar, mandou acordar os dois. Quando os criados regressaram, disseram à rainha que os quartos estavam vazios. A rainha desesperada, lembrou-se que, na noite anterior, enquanto preparava a cama da princesa, havia deixado os dois a sós para comerem. O tempo suficiente para planearem uma fuga. Procurou durante anos, enviou soldados a todos os cantos do reino e ainda mais além mas nunca mais teve notícias deles. Acabou por morrer sozinha e amargurada por ter tentado provar que a suposta donzela não era uma princesa de verdade.

Quanto aos dois apaixonados, nunca mais se soube nada deles. Ainda hoje existe uma lenda na região ao redor do castelo que conta a história e que termina com “E não se sabe se viveram ou não felizes para sempre”.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Escrita Criativa

Poderá ter passado despercebido, aos mais desatentos, a minha cada vez maior vontade de explorar e brincar com a escrita. Os incentivos de quem me rodeia acabaram por conseguir que respirasse fundo e me lançasse a escrever disparates ainda mais disparatados do que aqueles que tenho por hábito escrever. Desengane-se quem estiver à espera de relatos lamechas sobre mim mesma, quando virem uma etiqueta a dizer "Escrita Criativa" no fundo do texto. Não serão textos sobre ninguém, serão pura ficção e qualquer semelhança com a realidade, virtual ou não, será, mesmo, pura coincidência... ou não, que há quem diga que essas coisas não existem.
A verdade é que quando puxo por mim e pelo disparate, o que escrevo até tem uma piada relativa, e o discurso verborreico escorre sem filtros e com uma dose estranha de ironia. Enfim, a minha!
Aos mais desatentos e aos outros, aos um pouco mais atentos, aproveito para informar que o senhor Nicolau seria uma simpatia se, este ano, me colocasse na chaminé um curso de escrita criativa. Sem compromisso, claro está. Mas que seria simpático, lá isso seria. Dar sentido e ordem ao discurso verborreico exige uma dose de técnica que não possuo. A coragem, pelos vistos, estou a arranja-la e quanto ao trabalho e persistência, enfim, quem me conhece sabe que passo mais tempo a escrever que a falar e quando falo entra quase sempre mosca, para não sair uma grande asneira.
Os textos que colocar com a dita etiqueta são a resposta a desafios colocados por um site que se publicita muito bem e que costumo acompanhar na rede social da moda. Ou seja são exercícios que serão sempre precedidos do dito desafio.
Mais uma vez não garanto qualquer tipo de assiduidade à escrita, nem às estórias e contos. Dependem de algo que não depende inteiramente de mim, mas sim das ideias e conceitos que as minhas antenas captam via fm embora, por vezes, sejam muito pouco estereofónicas.
A todos um enorme Bem Hajam, sempre com a certeza que será preciso uma dose de paciência nem sempre alcançável e possível, para ler os meus textos e alucinações até ao fim...

Boneca

Caminhava sozinha, descalça por entre a multidão, sem dar atenção onde punha os pés e a desviar-se da multidão sem notar que o fazia. Caminhava sozinha, enquanto olhava o céu e esperava a chuva que disfarçaria as lágrimas que continha. Caminhava sem rumo e sozinha.
As memórias, um vislumbre, alguém que passava e que a fazia olhar em frente para ver quem aí vinha, era o suficiente para um arrepio a percorrer e para se encolher com a náusea que sentia. O aperto no peito havia de passar, isso sabia. Já o tinha sentido antes e sabia que, mais cedo ou mais tarde, havia de se desvanecer até ficar apenas as memórias de algo que tinha passado. Mas o murro no estômago, a náusea, a sensação visceral de medo era uma novidade recém redescoberta.
Quando se tapa e protege uma ferida antiga e profunda com ligaduras, não se repara que a ferida não está sarada, que continua aberta a corromper a carne. O cheiro e a visão são anulados e ganha-se o habito de tratar das ligaduras, de as retirar quando se dá conta que estão sujas e a apodrecer. Tapa-se a ferida e ficamos a pensar que o problema é trocar as ligaduras. A ferida nunca deixa de doer, nunca. Mas ganha-se o habito da dor e toma-se como um dado adquirido que faz parte de nós. O limite de dor é alargado e parece, só parece, que deixou de magoar. Isto pode durar dias, meses, anos. E dura. Vão-se mudando as ligaduras, trocam-se as sujas por limpas e pensamos que está tudo bem. Mas não está. O alivio é apenas temporário.
Os acontecimentos recentes tinham-na feito tomar consciência que era preciso retirar todas as ligaduras, tinham-na feito dizer com coragem, Já chega, vou tratar disto, vou resolver isto! E começou a retirar todas, uma a uma, algumas com mais violência, outras mais suavemente.
Não estava preparada para ver o que escondiam, não estava preparada para o cheiro fétido que emanava, para o sangue e podridão da carne. Lembrava-se como tinha sido feita, lembrava-se de quem lha tinha feito e e a quem já tinha perdoado. Mas anos a fio a esconde-la tinham-na feito aprofundar-se e envenenar o seu corpo.
A náusea voltou a invadi-la enquanto sentia a dor e o jorrar de sangue. Podia caminhar o que quisesse, por onde quisesse, com quem quisesse. A ferida era tão profunda que não iria curar-se sozinha e recusava-se a esconde-la outra vez. Para que servia esconde-la, agora que a tinha visto, tocado e cheirado?
Passaram-se dias e o murro no estômago continuava a acontecer, enquanto dava voltas à cabeça para tentar perceber como limpar e sarar uma ferida tão profunda. Não sabia e continua sem saber. Talvez o tempo, o amor, a atenção, o cuidado e um par extra de mãos o fizesse.
Ia caminhando sozinha, devagar, mexia-se devagar e cuidadosamente para não aprofundar a ferida, para não a abrir demais. E enquanto caminhava trazia a imagem de uma velha boneca de infância. A boneca estava sentada junto às outras bonecas e parecia-se com todas as outras com o seu sorriso pintado e cabelos sempre alinhados. Um olhar mais atento percebia que um dos seus braços estava colocado junto a ela, desencaixado. Uma boneca partida, sem um pedaço de si, com a junção entre o braço e o corpo laxo e solto. Conseguia encaixar o braço mas sempre que queria que ela levantasse os braços como as outras bonecas, o braço soltava-se e a boneca ficava outra vez partida, incompleta.
Era como se sentia... como uma boneca partida. Que por mais que tente colocar o braço no sitio, ela sabe que aquela boneca nunca será como as outras. Terá sempre de existir mais cuidado e atenção quando a faz levantar os braços. Será preciso amor e cuidado, será preciso dispensar-lhe tempo e considerá-la importante e realmente bonita e especial para brincar com ela. Se assim não for, quem vai querer brincar com uma boneca partida?

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Pequena Morte

Peço a paz
A do espírito,
Dos inocentes
A dos ignorantes.
A dos que não sabem
Nem querem saber.

Peço a paz
Dos anestesiados,
Dos que não sentem
Na pele e na carne.
A paz dos que não vêem
Nada mais para além
Do óbvio, do vulgar.

Peço a paz
A paz do silêncio,
A das tréguas,
A do sabor do vinho
E a do vazio
Depois das lágrimas.

Peço a paz
Da pequena morte,
Sem sonhos nem navios,
Sem perturbações
Nem intempéries.

Peço a paz
E o acordar indefinido,
O suave espreguiçar
E alongar da alma,
Lânguido e tranquilo.
O que só depois da paz
Pode surgir e ser vivido.